Em gesto diplomático inédito, a Rússia aceitou oficialmente as credenciais do novo embaixador do Afeganistão, consolidando-se como o primeiro país a reconhecer formalmente o governo talibã desde a retomada do poder em 2021. A decisão sinaliza um novo capítulo nas relações bilaterais entre Moscou e Cabul.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores russo, há “boas perspectivas” para o estreitamento dos laços políticos e econômicos. O governo russo também declarou apoio à estabilidade afegã, com foco em segurança, combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas.
Além da cooperação em segurança, a Rússia aposta no potencial de investimentos em setores como energia, transporte, agricultura e infraestrutura. “Acreditamos que esse reconhecimento oficial dará impulso à cooperação produtiva entre nossos países em diversas áreas”, afirmou o ministério russo.
A resposta afegã não tardou. O ministro das Relações Exteriores do Afeganistão, Amir Khan Muttaqi, agradeceu o gesto de Moscou, classificando-o como “uma medida corajosa que poderá inspirar outras nações”.
Apesar de nenhum outro país ter reconhecido formalmente o regime do Emirado Islâmico do Afeganistão, nações como China, Emirados Árabes Unidos, Paquistão e Uzbequistão já mantêm diplomatas em Cabul, o que representa um movimento gradual rumo à legitimidade internacional.
A atitude russa pode ter repercussões geopolíticas relevantes. Desde a retirada caótica das tropas americanas do país, os Estados Unidos mantêm sanções contra lideranças talibãs e congelaram bilhões em ativos do banco central afegão, agravando a crise econômica local.
Em paralelo, Moscou vem reforçando seu diálogo com os talibãs. Desde 2022, o Afeganistão importa gás, trigo e petróleo da Rússia. Embora o grupo ainda constasse na lista russa de organizações terroristas, a proibição foi oficialmente suspensa em abril deste ano.
A aproximação com Cabul é vista por analistas como uma estratégia do Kremlin para conter a ameaça de grupos extremistas ativos em regiões fronteiriças, que vão do Oriente Médio ao território afegão.


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