Recuo do governo em tarifas de importação expõe improviso fiscal e pressão política

A decisão do governo federal de voltar atrás em parte do aumento do imposto de importação sobre eletrônicos e bens de capital, oficializada pelo Gecex ligado à Camex, revela mais do que um ajuste técnico: escancara a dificuldade do Planalto em sustentar medidas impopulares diante da reação do Congresso, do setor produtivo e da opinião pública. O movimento, visto como recuo político, ocorre poucas semanas após o anúncio de uma medida que tinha potencial de elevar preços e reforçar o discurso de aumento da carga tributária.

A proposta original era defendida pelo ministro Fernando Haddad como forma de proteger a indústria nacional e ampliar a arrecadação — estimada em até R$ 14 bilhões. No entanto, a forte repercussão negativa e o alerta de impacto direto sobre o consumidor, especialmente em produtos de alto consumo como smartphones e notebooks, tornaram o custo político da medida alto demais para ser mantido.

O recuo parcial, com a volta das alíquotas anteriores para itens de informática e a ampliação do uso do mecanismo de ex-tarifário para zerar impostos de máquinas e equipamentos sem produção nacional, expõe uma contradição recorrente na política econômica: o governo tenta combinar discurso de reindustrialização com necessidade urgente de receita, mas esbarra na falta de previsibilidade e na comunicação falha com o mercado e o Legislativo.

Outro ponto sensível é o sinal transmitido ao setor produtivo. Mudanças abruptas seguidas de revisão em curto prazo aumentam a percepção de insegurança regulatória, dificultando planejamento de investimentos e alimentando críticas de improviso na condução da política tarifária. Mesmo com o argumento técnico de que as alíquotas maiores ainda não haviam entrado em vigor, o desgaste político já estava consolidado.

No Congresso, a leitura predominante é de que a pressão surtiu efeito, reforçando a ideia de um Executivo vulnerável à reação parlamentar em temas econômicos. O episódio também deve impactar o debate sobre novas medidas de arrecadação, já que evidencia a resistência a iniciativas que possam ser interpretadas como aumento indireto de impostos em um cenário de consumo pressionado e crescimento moderado.

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